Viver com o Transtorno Bipolar Tipo 2 é, muitas vezes, sentir-se como um passageiro em um barco sem leme. Em um dia, a hipomania te sopra para águas agitadas, cheias de ideias e energia inesgotável. No outro, a depressão te submerge em um oceano denso e imóvel.
Por muito tempo, tentei controlar as ondas. Tentei impedir que o humor mudasse na força do pensamento. O resultado? Frustração, exaustão e uma sensação constante de fracasso.
Foi aí que encontrei o Estoicismo, especificamente um conceito chamado Dicotomia do Controle, popularizado pelo filósofo Epicteto.
O que é a Dicotomia do Controle?
A premissa é simples, mas transformadora: algumas coisas dependem de nós, outras não.
Epicteto dizia que sofremos porque tentamos controlar o que é incontrolável e negligenciamos o que realmente está em nossas mãos. Para quem convive com uma oscilação neuroquímica, entender essa divisão é a diferença entre o desespero e a estabilidade.
1. O que NÃO está no meu controle
No contexto da bipolaridade, eu precisei aceitar que não controlo:
- O surgimento da crise: Por mais que eu me cuide, a química do cérebro pode oscilar. Sentir a queda da depressão ou a aceleração da hipomania nem sempre é uma escolha.
- O julgamento alheio: O estigma sobre a saúde mental ainda existe. O que os outros pensam sobre o meu diagnóstico foge do meu alcance.
2. O que ESTÁ no meu controle
Aqui é onde a nossa “Tecla Fixa” deve atuar. Eu controlo:
- Minha rotina de cuidado: Tomar a medicação no horário, priorizar o sono e manter a terapia em dia.
- Minha resposta aos sintomas: Eu posso não evitar a tristeza, mas posso evitar os pensamentos catastróficos que dizem que “nunca mais ficarei bem”. Posso não evitar a euforia, mas posso evitar tomar decisões financeiras impulsivas enquanto estou nela.
- Minha disciplina com a verdade: Olhar para o espelho e admitir: “Hoje meu humor não está bom, preciso de recolhimento”.
Conclusão: A Liberdade na Aceitação
O estoicismo não prega a ausência de sentimentos, mas a soberania da razão sobre eles. Quando eu paro de lutar contra a existência da minha condição e foco apenas nas ações práticas que posso tomar hoje, o peso diminui.
A bipolaridade pode mudar o clima do meu dia, mas o Estoicismo me ensina que eu sou o capitão, e meu leme é a minha capacidade de escolher como navegar, independentemente do tempo lá fora.