Heidegger: Ocupação vs Existência – Despertando do Piloto Automático

Sabe aquela sensação de que os dias se misturam, que a vida passa em um borrão, e que você está sempre correndo, mas nunca chegando a lugar nenhum? É como se estivéssemos em um trem em alta velocidade, olhando a paisagem passar pela janela, mas sem realmente ver nada. Essa é a realidade de muitos de nós, presos em um ciclo de produtividade incessante, notificações digitais e uma busca quase frenética por “fazer” algo, qualquer coisa, para preencher cada minuto do nosso tempo.

Eu, Shirlei, já me peguei inúmeras vezes nesse “piloto automático”, respondendo e-mails tarde da noite, rolando o feed das redes sociais sem propósito, ou simplesmente me sentindo culpada por não estar “produzindo” algo a cada instante. É exaustivo, não é? Essa ocupação constante, essa ditadura da produtividade, nos afasta de algo muito mais profundo e essencial: a nossa própria existência. Mas e se eu te dissesse que um filósofo alemão do século XX, Martin Heidegger, já nos alertava sobre os perigos dessa vida inautêntica e nos apontava um caminho para um viver mais pleno?

A Correria Moderna: Um Véu Sobre a Existência

Não é preciso ser um gênio para perceber que a vida moderna nos empurra para uma velocidade vertiginosa. Desde o momento em que acordamos, somos bombardeados por informações, demandas e a pressão invisível de “estar sempre conectado”. O smartphone se tornou uma extensão do nosso corpo, e a ausência de uma notificação pode gerar uma estranha sensação de vazio.

As redes sociais, então, são um capítulo à parte. Elas nos prometem conexão, mas muitas vezes nos entregam uma vitrine de vidas “perfeitas” que nos deixam com a sensação de que a nossa própria vida é insuficiente. A gente compara, a gente se cobra, a gente tenta se encaixar em padrões que não são nossos. E, nesse turbilhão, a gente se perde. A gente se ocupa tanto com o “ter” e o “fazer” que esquece de “ser”.

Heidegger e a Questão do Ser: Uma Jornada para Dentro

Martin Heidegger, em sua obra monumental “Ser e Tempo”, não estava preocupado com a correria das redes sociais – afinal, elas nem existiam em sua época. Mas ele estava profundamente preocupado com a forma como a humanidade, o Dasein (termo que ele usava para “ser-aí” ou “existência humana”), se relacionava com o seu próprio ser. Para ele, a maior parte das pessoas vivia em um estado de “existência inautêntica”, uma vida superficial, diluída na massa, no “se” impessoal (o Man).

O Dasein inautêntico é aquele que vive conforme o que “se diz”, o que “se faz”, o que “se pensa”. É o indivíduo que se conforma com as normas sociais, que segue a multidão, que evita a responsabilidade de fazer suas próprias escolhas. É o “piloto automático” que mencionei antes. A gente se ocupa com o trabalho, com o lazer padronizado, com as conversas banais, com o consumo. Tudo isso nos distrai da nossa própria finitude, da nossa singularidade, da nossa capacidade de escolher e de criar sentido.

A Existência Inautêntica: O Ruído que Nos Impede de Ouvir

Heidegger descreveu a existência inautêntica como uma fuga. Uma fuga da angústia, da responsabilidade de ser livre, da confrontação com a nossa própria morte. E como a gente foge? Através da “tagarelice” (Gerede), da “curiosidade” (Neugier) e da “ambiguidade” (Zweideutigkeit).

  • Tagarelice: Não é apenas falar muito, mas falar sem profundidade, repetir o que “se diz”, sem reflexão genuína. É o burburinho constante das redes sociais, das notícias superficiais, das conversas vazias que preenchem o silêncio.
  • Curiosidade: Não é a busca genuína por conhecimento, mas uma busca incessante por novidades, por distrações, por tudo o que é efêmero e passageiro. É o scroll infinito no smartphone, a necessidade de estar sempre “por dentro” do que acontece, sem realmente se aprofundar em nada.
  • Ambiguidade: É a incapacidade de distinguir o que é genuíno do que é superficial, o que é importante do que é trivial. É a confusão de valores, a perda de um norte autêntico.

Tudo isso nos mantém em um estado de ocupação constante, de distração permanente. A gente se ocupa tanto com o mundo exterior que perde o contato com o nosso mundo interior. E é nesse ruído que a nossa saúde mental pode ser seriamente comprometida. A ansiedade e o estresse se tornam companheiros constantes, e a gente nem percebe que estamos fugindo de nós mesmos.

O Excesso de Produtividade e o Medo do Silêncio

A sociedade contemporânea glorifica a produtividade. Ser “ocupado” é quase um distintivo de honra. “Não tenho tempo” virou um mantra. A gente se sente culpado se não está fazendo algo “útil” o tempo todo. Essa pressão por produtividade constante é uma das maiores manifestações da existência inautêntica de Heidegger. A gente se define pelo que faz, não pelo que é.

E o que acontece quando a gente para? Quando o silêncio se instala? Ah, aí vem o medo. O medo de ficar sozinho com os próprios pensamentos, com as próprias angústias, com a própria finitude. O silêncio nos confronta com a nossa própria existência, com a nossa liberdade e com a nossa responsabilidade. E isso pode ser assustador.

É por isso que a gente preenche cada lacuna: com música, com podcasts, com vídeos, com mensagens. Qualquer coisa para evitar o vazio, para evitar a confrontação com o “ser-aí” que somos. Mas é justamente nesse silêncio, nesse vazio aparente, que reside a chave para a Heidegger Existência autêntica.

A Existência Autêntica: O Chamado da Consciência

Para Heidegger, a existência autêntica não é um estado de perfeição, mas um modo de ser que se caracteriza pela apropriação da própria existência. É quando o Dasein se volta para si mesmo, reconhece sua finitude (o “ser-para-a-morte”) e assume a responsabilidade por suas escolhas. É um despertar do “piloto automático”.

Como a gente faz isso? Através da angústia (Angst). Não a ansiedade neurótica que nos paralisa, mas uma angústia existencial que nos revela a nossa liberdade e a nossa singularidade. É a angústia que nos tira do conforto do “se” impessoal e nos coloca diante da nossa própria individualidade.

A existência autêntica é um compromisso com a nossa própria verdade, com a nossa capacidade de criar sentido, de fazer escolhas que ressoem com quem realmente somos, e não com o que os outros esperam de nós. É um processo contínuo, uma jornada, não um destino final.

O Tédio Planejado: Uma Porta para a Reconexão

Se o ruído e a ocupação constante nos afastam da nossa existência, o que pode nos trazer de volta? O silêncio. E, mais especificamente, o que eu chamo de “tédio planejado”.

Heidegger via o tédio como uma experiência profunda que pode nos revelar a nossa própria existência. Não o tédio superficial de “não ter nada para fazer”, mas um tédio mais profundo, aquele que nos confronta com o vazio, com a falta de sentido aparente. É nesse tédio que a gente pode começar a ouvir a nossa própria voz, a nossa própria consciência.

Dica Prática: Momentos de Tédio Planejado para Reconexão com o Próprio Ser

Que tal agendar momentos de “tédio planejado” na sua semana? Não é para ser produtivo, não é para meditar (a menos que você queira), não é para fazer nada em particular. É para ser.

  1. Desligue Tudo: Celular no modo avião, televisão desligada, sem música, sem podcasts.
  2. Escolha um Tempo e Lugar: Pode ser 15 minutos no seu quarto, 30 minutos sentado no parque, ou até mesmo 5 minutos no banheiro (se for o único lugar onde você encontra paz!).
  3. Apenas Esteja: Não tente preencher o tempo. Apenas observe. Observe seus pensamentos vindo e indo. Observe os sons ao seu redor. Observe sua respiração. Não julgue, apenas observe.
  4. Resista ao Impulso: No começo, a vontade de pegar o celular, de ligar a TV, de “fazer algo” será enorme. Resista. Deixe a mente divagar. Deixe o tédio se instalar.
  5. Pergunte-se (se surgir): O que eu estou sentindo? O que eu estou pensando? O que é realmente importante para mim neste momento?

Esses momentos de “tédio planejado” são como pequenos retiros para a alma. Eles nos permitem sair do fluxo constante de informações e demandas, e nos reconectar com o nosso próprio Dasein. É um exercício de coragem, de enfrentar o silêncio e o vazio, mas é também um caminho para a autodescoberta e para uma Heidegger Existência mais autêntica.

A Escolha é Sua: Ocupação ou Existência?

A vida moderna nos oferece inúmeras oportunidades de ocupação. E muitas delas são necessárias e até prazerosas. O ponto não é abandonar todas as ocupações, mas sim questionar se elas estão nos servindo ou se estamos servindo a elas. Estamos nos ocupando para fugir de nós mesmos, ou estamos nos engajando em atividades que nos preenchem e nos conectam com quem realmente somos?

Heidegger nos convida a fazer uma escolha consciente. A sair do “piloto automático” e a assumir a responsabilidade pela nossa própria existência. É um convite para viver de forma mais autêntica, para criar nossos próprios valores, para enfrentar a angústia da liberdade e, assim, encontrar um sentido mais profundo para a nossa jornada.

Não é um caminho fácil, mas é um caminho que vale a pena. É o caminho para uma vida onde você não apenas passa pelos dias, mas realmente vive cada um deles, com consciência, propósito e autenticidade.

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